Como a Fisiologia Comparada Revela os Limites da Vida e Estimula a Ciência no Brasil – Entrevista com o Dr. Cleo Leite

A atuação profissional em pesquisa científica é um campo vasto e cheio de desafios, especialmente no Brasil, onde a inconsistência no suporte político para o progresso da ciência, faz com que a resiliência seja uma qualidade essencial para quem se dedica profissionalmente à pesquisa. Em uma entrevista esclarecedora, o Dr. Cléo Leite compartilhou sua trajetória, suas linhas de pesquisa e reflexões profundas sobre o trabalho científico e a academia no país.

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BR Foto Cleo A

Trajetória e o Fascinante Mundo da Fisiologia Comparada

O interesse pela ciência sempre existiu, mas a escolha pelas Ciências Biológicas foi motivada pela possibilidade de atuar diretamente com experimentação em investigações científicas. O Dr. Cléo cursou Ciências Bilógicas na Universidade Federal de Pernambuco e, antes de se especializar, explorou diversas áreas. Ele ressaltou que, por ser um campo muito amplo, a biologia exige que o estudante faça estágios e se especialize ao longo do curso para assim, ser competitivo.

Durante seu tempo na faculdade, ele ingressou em um laboratório de fisiologia animal para investigar alterações metabólicas e dormência em um peixe de respiração aérea que sobrevive longos períodos fora d’água, o Synbranchus marmoratus. Esse peixe de água doce, com respiração aérea facultativa, permanece em ambientes que secam por meses, enfrentando limites de desidratação, metabólicos, de temperatura, suporte alimentar, acúmulo de excretas nitrogenados, dentre outras coisas. 

Uma dificuldade inesperada em seu primeiro projeto levou a um desvio de foco: "Eu acabei fazendo um projeto sobre métodos de coleta de eletrocardiograma naquele tipo de animal.” Essa mudança o fez refletir sobre a importância do desenvolvimento de instrumentação e metodologia, que, mesmo não sendo o objetivo inicial, são úteis para a construção do conhecimento. Uma palestra sua sobre métodos de instrumentação em peixes o levou a conhecer, em um congresso, o grupo onde realizaria seu Mestrado e Doutorado na UFSCar.

Atualmente, sua grande área de atuação é a Fisiologia Comparada, que se baseia no princípio de Krogh: Para cada função (fisiológica/ecológica), existe uma espécie animal com características tais, que permitem investigações de forma mais conveniente. Essa abordagem investigativa é particularmente relevante no Brasil, que possui grande numero de biomas diferentes e uma biodiversidade gigante, aumentando a probabilidade de encontrar a espécie ideal para cada questão científica.

Linhas de Pesquisa Atuais: Da Toxicologia à Clínica

O Dr. Cléo trabalha com ajustes cardiorrespiratórios e metabólicos e investiga como esses sistemas são modulados (mecanismos presentes, limites de ajustes e capacidades) para enfrentar os desafios impostos pelo meio a cada espécie. Entender esses mecanismos permite identificar os limites desses ajustes, como se adequam as alterações do ambiente e inclusive os limites que alterações ambientais podem impor à vida de alguns animais. Assim, o conhecimento neste campo tem sido aplicado em diferentes frentes:

  • Instrumentação Animal e Manejo: Estudo sedação, anestesia e, principalmente, a recuperação de animais, incluindo serpentes e lagartos. O objetivo é definir substâncias potencialmente utilizáveis em cada uma destas fases, o impacto de potenciais fármacos na clínica e biologia experimental e seus limites de uso. Em especial, temos interesse no processo de recuperação animal. Pretendemos ir além do uso de observação comportamental como principal indicador de recuperação e definir a progressão de retomada de capacidades fisiológicas (recuperação autonômica) após anestesia. Isso tem grande impacto na tomada de decisões clínicas e em experimentação na biologia experimental.
  • Ecotoxicologia: Investigação do impacto de contaminação por partículas metálicas provenientes do processamento de minério de ferro. O estudo, feito com peixes e camarões, mostra que essa contaminação pode limitar a capacidade dos animais de enfrentar desafios ambientais comuns, o que, embora não cause morte imediata (escapando da legislação atual), gera problemas graves na manutenção da população estável. Estes desafios estão relacionados a variações normais do ambiente, como a variação diária na disponibilidade de oxigênio (ciclos de hipóxia), ciclos de temperatura, capacidades para realizar atividade física, variações metabólicas, dentre outros.
  • Produção Animal: Teste de agentes fitogênicos (ou fitobióticos), substâncias vegetais que podem ser incorporadas na ração, podem aumentar capacidades funcionais, como o metabolismo e a capacidade de resposta a patógenos, o que remete a realocação de energia pelo animal e, em piscicultura, resulta em crescimento mais rápido e aumento da produtividade. O desenvolvimento de técnicas para o uso de tais substâncias, contribui para a produção de alimentos de qualidade, o que é um gargalo enfrentado ao redor do mundo.
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BR Cleo C

O uso de sistemas como o PowerLab e a tecnologia como a da Transonic e equipamentos de Telemetria têm se mostrado muito relevantes para o registro de variáveis cardiorespiratórias e autonômicas com qualidade o suficiente para análises consistentes em muitos processos. O uso de espécies diferentes em investigações, uma característica da fisiologia comparada, remete à um constante desafio para aprimoramento em procedimentos de instrumentação, processos cirúrgicos e recuperação animal.

Neste ponto, a capacidade de registro de processos fisiológicos em algumas espécies pode ser limitada por características do equipamento (tamanho, massa, presença de cabos, contaminantes, outros). Assim, aspectos como versatilidade e robustez do equipamento e confiabilidade e precisão de registros são fundamentais. Outro aspecto importante que só recentemente tem se tornado viável, é a possibilidade de trabalhar com equipamentos implantáveis. A possibilidade de implantação de sondas e/ou transdutores e transmissão de sinais sem fio, por exemplo, é crucial para obter sinais fisiológicos de qualidade em animais sem distúrbios e investigação de alguns processos autonômicos.

Equipamentos com estes, por exemplo, permitiram observar que interações cardiorrespiratórias complexas como a arritmia sinusal respiratória e sincronia cardiorespiratória, a estrutura neural relacionada a tais modulações e as interações autonômicas relacionadas a estas estão presentes em diversos vertebrados (peixes, anfíbios, répteis) e assim, possuem origem evolutivas muito primitivas neste grupo. Este era um processo considerado derivado e presente apenas em mamíferos e sobre tal premissa errônea, uma série de teorias equivocadas foram desenvolvidas no campo da psicobiologia. O uso de tais equipamentos e uma série de espécies de vertebrados neotropicais (ex.: pacu, piramboia, cururu, cascavel, tegu - Piaractus mesopotamicus, Lepidosiren paradoxa, Rhinella schneideri, Crotalus durissus, Salvator merianae) foram importantes para colocar tais ideias em discussão.

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BR Cascavel
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BR Synbranchus marmoratus
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BR tegus - Salvator merianae

Cascavel - Crotalus durissus; Piramboia - Lepidosiren paradoxa; Tegus - Salvator merianae
Imagens por Gustavo Oda

Três Dicas Essenciais para o Jovem Pesquisador

Ao ser questionado sobre conselhos para quem está começando na pesquisa, Cléo comentou sobre três pontos que merecem atnação:

  1. Leitura Profunda e com Significado: "Leitura é muito importante. É preciso treinar a leitura para entender as minúcias, as intenções do autor e a discussão subjacente ao texto. O pesquisador faz uma distinção clara: "Busca no Google não é pesquisa, leitura de blog não é estudo”.
  2. Desapego Emocional de Hipóteses: O cientista não milita por uma ideia. O processo científico moderno exige que hipóteses sejam testadas e confrontadas de todas as formas. "Você estuda e desenha uma hipótese. Na sequência você tenta, você tenta provar que a sua hipótese está errada e se não conseguir falseá-la, você a aceita como verdade por enquanto. Esta é a forma atual de construção acadêmica de conhecimento". Apegar-se emocionalmente a uma hipótese levará a muita frustração41.
  3. Valorização das Recompensas Não-Materiais: A ciência atrai um perfil de pessoa que valoriza ganhos e alegrias diferentes do acúmulo de bens materiais. As recompensas vêm da troca de ideias, da possibilidade de colaborar com pessoas que são referências na área, e do crescimento pessoal e intelectual. Quem busca apenas o "aval social ou aval de outras naturezas" pode não ter o perfil para a área acadêmica.

O Futuro da Ciência no Brasil

Apesar dos desafios já conhecidos, o trabalho científico se mantém através da interdisciplinaridade e colaboração, com intenso intercâmbio de alunos e pesquisadores, há uma dificuldade atual premente que não está relacionada tais carências em estrutura ou perguntas a serem feitas, mas sim o número de pessoas dispostas a encarar os desafios de uma área onde "é normal as coisas não funcionarem" na primeira tentativa.

A pergunta que se deixa é: Você está disposto a tornar a ciência mais fácil?

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